Vida Após a Morte – Uma Mensagem de Esperança
Ecos do XVI Congresso da ACEPS-Portugal
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A morte é um
problema universal da humanidade, que tem sido motivo de reflexão de filósofos,
teólogos e outros pensadores ao longo da História. Na minha investigação
pessoal acerca deste tema, encontrei seis características que a identificam. A
morte é um mistério, é universal, é um tabu, é um inimigo, é imprevisível e é
inevitável. A mensagem de esperança sobre a vida após a morte fundamenta-se na
fé cristã e na minha convicção pessoal de que na pessoa de Jesus Cristo
encontramos a resposta ao problema da morte, pois não só a Sua Vida dá sentido
à morte como também a Sua morte sacrificial e voluntária pela humanidade
confere sentido à vida de todos aqueles que, ao longo dos séculos, O aceitam e
seguem como o Messias prometido.
A
morte é um mistério
De uma maneira geral, os seres humanos temem o
desconhecido, e a morte é o exemplo supremo do desconhecido, conforme afirmou o
filósofo francês Lévinas (1906-1995): “A morte é o mais desconhecido de todos
os desconhecidos”. Epicuro (342-270 a.C.) defendia a doutrina materialista de
que a morte física representa o fim da existência do ser humano e que não
existe nada para lá desta última fronteira: “Enquanto nós existimos, não existe
a morte, e quando chega a morte, nós já não existimos”. A sua filosofia,
denominada estoicismo, caracterizava-se por se procurar viver uma vida
tranquila ou como diríamos hoje “sem stress”,
evitando a dor e o sofrimento.
O padre e teólogo Anselmo Borges, que se tem
dedicado desde há vários anos ao problema da morte, refere: “Confrontados com a
morte é, pois, com o mistério absoluto que deparamos. Porque não sabemos o que
ela é nem sabemos o que é estar morto, como também não sabemos o que é que
propriamente quer dizer o que denominamos como “o além”, o “depois” da morte.
De facto, enredados no tempo e no espaço, a morte significa o já não estar nem
no espaço nem no tempo”.
A morte poderá ser considerada um mistério, pois são
poucos os que podem falar dela na primeira pessoa e são escassos os relatos de
quem recuperou de um diagnóstico confirmado de morte clínica. Porém, Jesus
Cristo é o único que pode declarar com toda a autoridade: “Não temas: Eu sou
aquele que está vivo! Estive morto, mas agora vivo para sempre. Eu tenho poder
sobre a morte e sobre o mundo dos mortos”
(Ap. 1:18).
A
morte é universal
A morte é uma realidade dramática da existência
humana, que também partilhamos com os outros seres vivos, conforme nos recorda o
rei David: “A grandeza de um homem não o salva da morte; como todos os animais, também ele tem de
morrer” (Sl. 49:21). É o acontecimento mais democrático e
igualitário da existência humana, pois não faz discriminação entre ricos e
pobres, entre poderosos e humildes, entre homens e mulheres ou entre novos e
velhos. Na hora da morte, somos todos iguais.
Ao longo da sua vida, o ser humano é um “ser para a
morte”, como afirmou o filósofo alemão Heidegger (1889-1976). Somos, nas
palavras de Fernando Pessoa (1888-1935), “cadáveres adiados”. John F. Kennedy
(1917-1963), o malogrado presidente dos EUA assassinado em 1963, escreveu acerca
deste fenómeno universal: “O laço essencial que nos une é que todos habitamos
este pequeno planeta. Todos respiramos o mesmo ar. Todos nos preocupamos com o
futuro dos nossos filhos. E todos somos mortais”.
Como
refere o autor da carta aos Hebreus, no Novo Testamento, “aos homens está
ordenado morrerem uma só vez” (Hb. 9:27). Na verdade, seja qual for o método
utilizado para diagnosticar a morte de uma pessoa, designadamente com recurso
aos critérios clássicos de morte por paragem cardiorrespiratória ou, por vezes,
aos critérios de morte cerebral, é fundamental ter-se em consideração que a
morte é um acontecimento único e irreversível, cuja verificação é da
responsabilidade de um médico.
A morte
é um tabu
No
passado, e em algumas regiões de Portugal até há bem pouco tempo, a morte era
um acontecimento social. Era aguardada na maioria das vezes em casa, e o
moribundo encontrava-se rodeado de parentes, amigos e vizinhos e até mesmo de
crianças que vinham despedir-se e prestar a sua última homenagem. Hoje, morre-se sobretudo no Hospital (em mais
de 60% dos casos), por vezes sozinho e em sofrimento.
Nos EUA, a morte representa um negócio próspero que
movimenta milhões de dólares. Os cadáveres não parecem mortos nem têm cheiro,
devido à atividade das agências funerárias, que não se limitam a organizar o
funeral mas oferecem serviços como o embalsamamento e tratamento cosmético dos
corpos.
Os historiadores consideram que a morte é o
principal tabu dos tempos modernos, em que se procura viver como se ela não
existisse. O sociólogo inglês Geoffrey Gorer (1905-1985), na sua obra seminal Looking at Life and Death (1936)
escreveu acerca da “conspiração de silêncio” acerca da morte, considerada como
se fosse um assunto obsceno, secreto e solitário. O historiador francês
Philippe Ariès (1914-1984) considera também que no século XX o tema da morte se
tornou proibido. Para este autor, a tendência atual de se recorrer cada vez
mais à cremação do que ao enterro dos cadáveres traduz também uma tentativa
radical de ocultação dos corpos, através
da sua eliminação. Porém, como assinala o Pe. Anselmo Borges: “Não se julgue
que a morte se tornou tabu pelo facto de já não ser problema. É exactamente o
contrário que se passa: de tal modo é problema, aparentemente o único problema
para o qual uma sociedade que se julga omnipotente não tem solução que a única
solução que resta é fazer de conta que ele pura e simplesmente não existe,
portanto, ignorá-lo, reprimi-lo (...) As nossas sociedades são as primeiras na
história a colocar o seu fundamento sobre a negação da morte”. E questiona,
“como é que uma sociedade que gira à volta da organização económica,
determinada pelo individualismo concorrencial, feroz e insolidário, onde os
valores autênticos são o êxito, a juventude, a beleza, a eficácia, a produção,
o lucro, acumulação de bens, exaltação da vida, progresso e riqueza, pode ainda
acompanhar efetivamente os doentes, os velhos e os moribundos, e suportar o
supremo
fracasso da morte?”.
A
morte é um inimigo
De um ponto de vista humano, a morte não faz
sentido. É uma aberração, é anti-natural, é uma violação da vida. Como afirmou
Jean-Paul Sartre (1905-1980), o influente filósofo existencialista francês, “é
absurdo que tenhamos nascido e é absurdo que morramos”. O escritor António Lobo
Antunes, que sobreviveu a um cancro do intestino, escreveu sobre a sua condição
de doente oncológico: “Tenho a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido
da morte”.
Muitos certamente já viram uma célebre fotografia
tirada durante a fome no Sudão, em 1994, que retrata uma criança gravemente
subnutrida ao lado de um abutre que aguarda a sua morte. Esta foto foi distinguida
com o famoso prémio Pulitzer nesse ano, mas o seu autor, o fotógrafo sul-africano
Kevin Carter (1960-1994), suicidou-se três meses mais tarde vítima de depressão,
com apenas 33 anos de idade.
A Bíblia descreve realisticamente a morte como um
inimigo, que não fazia parte do plano original de Deus. Surgiu devido à
desobediência do primeiro homem no jardim do Éden, que os teólogos denominam
“Queda” e que culminou na sua expulsão do paraíso. Mas apesar da morte ser
claramente um inimigo, John Wyatt, professor catedrático de Neonatologia no Imperial College em Londres e um cristão
convicto, salienta: “A esperança de vida do ser humano é limitada, não apenas
como resultado do castigo de Deus mas também da Sua graça e misericórdia”,
porque “no cuidado de Deus para com a Sua criação, não era possível que o ser
humano vivesse eternamente no seu estado degradado e limitado como consequência
da Queda”.
A
morte é imprevisível
Uma
das características mais marcantes da morte é a sua imprevisibilidade. Basta
uma breve visita à morgue de qualquer Instituto de Medicina Legal para
constatarmos que a morte não escolhe apenas os doentes, os idosos ou os chamados
grupos de risco, mas também os saudáveis, os jovens, os ocupados, os que estão
bem na vida.
José
António Saraiva escreveu numa das suas crónicas semanais: “Um homem pode prever
muita coisa, mas dificilmente imagina o momento e a situação em que se
confrontará com o espectro da morte”. Basta
pensar na morte inesperada do jovem futebolista Miklos Fehér, em 2004, durante
um jogo que estava a ser transmitido em direto, ou o tsunami de Dezembro de
2004, que vitimou cerca de 220 000 pessoas, ou o terramoto do Haiti, em Janeiro
de 2010, no qual perderam a vida mais de 200 000.
Sigmund Freud (1856-1939) afirmou que “cada um de
nós está inconscientemente convencido da sua imortalidade”, o que é particularmente
notório nos jovens, para quem a morte é considerada uma possibilidade muito
remota. No entanto, na minha atividade profissional como cirurgião vascular, vi
dezenas de casos de jovens que perderam a vida ou partes do seu corpo em
resultado de acidentes de viação, a maior parte com veículos de duas rodas.
A
morte é inevitável
Alguém disse que só há duas coisas certas na vida:
os impostos e a morte! Na tradição popular portuguesa encontramos alguns
ditados acerca desta evidência, como por exemplo “vamos à vida que a morte é
certa”, “morte certa, hora incerta”, “nem rei, nem Papa, à morte escapa”, “só
uma porta a vida tem, enquanto a morte tem cem”. O escritor inglês C. S. Lewis
(1898-1963), durante a 2.ª Guerra Mundial, constatou que a guerra não aumenta a
morte, pois a morte é total em cada geração.
Os enormes progressos médicos e tecnológicos
alcançados nas últimas décadas, na área da saúde, levaram a um aumento
extraordinário da esperança média de vida nos países desenvolvidos. Para este
aumento da esperança de vida contribuiu, mais do que a possibilidade de
tratamento curativo de muitas doenças, a sua prevenção, através da melhoria das
condições higieno-sanitárias e alimentares, vacinação eficaz e acesso
generalizado aos cuidados de saúde. No entanto, ao longo da história da
humanidade, a maioria das pessoas não ultrapassava os 35 anos, à semelhança do
que acontece nos países menos desenvolvidos. Em Portugal, a esperança média de
vida à nascença é atualmente de 76,14 anos para o sexo masculino e de 82,05
anos para o feminino. Alguns especialistas acreditam que em 2025, nos países
desenvolvidos, será superior a 90 anos. Mas apesar de todos estes êxitos no
combate à doença, mais cedo ou mais tarde chega sempre o momento da morte.
Esperança
na morte
Todas as características acerca da morte, atrás
referidas, representam apenas uma parte da história, na medida em que há uma
outra realidade que deve ser tida em conta. Isto porque a morte, para além de
ser um acontecimento biológico e social, é também um acontecimento espiritual e
é precisamente por esse motivo que podemos encarar a morte com esperança.
Em geral, somente em
ocasiões como a morte de um familiar ou amigo, um acidente grave ao qual
sobrevivemos ou a revelação de uma doença fatal, somos confrontados com a
questão essencial do significado e propósito da vida. No entanto, como afirma o conhecido evangelista
norte-americano Billy Graham, “ninguém está verdadeiramente preparado para
viver enquanto não estiver preparado para morrer”. Na
Idade Média, um provérbio latino muito evocado dizia memento mori, que significa “recorda que tens de morrer”. Alguns
teólogos antigos colocavam uma caveira na sua secretária para se recordarem da
sua mortalidade, o que ainda hoje pode ser observado em algumas pinturas do
período barroco. Estavam assim a seguir as indicações das Escrituras, que
referem “Melhor é ir à casa onde há
luto do que ir à casa onde há banquete, porque ali se vê o fim de todos os
homens; e os vivos o aplicam ao seu coração” (Ecl. 7:2) ou ainda “Ajuda-nos a contar os nossos dias, para que
tenhamos um coração sábio” (Sl. 90:12).
O teólogo, filósofo e cientista francês Teilhard de
Chardin (1881-1955) escreveu: “nós não somos seres humanos que têm uma
experiência espiritual. Nós somos seres espirituais que têm uma experiência
humana”. Na lápide tumular de Johannes Kepler (1571-1630), o famoso astrónomo
alemão do séc. XVII, estão gravadas as seguintes palavras: “o espírito
pertencia ao céu, aqui jaz a sombra do corpo”.
Alexander Solzhenitsyn (1918-2008), o escritor russo
contemporâneo, laureado com o Nobel da Literatura em 1970, afirmou: “como
cristão, creio que há vida após a morte, e por isso entendo que ela não é o fim
da existência. A alma tem uma continuação, continua a viver. A morte é apenas uma
etapa, alguns dizem mesmo uma libertação”.
A confiança cristã numa vida após a morte não é uma
utopia mas tem por base a Palavra de Deus. Disse Jesus a Marta, irmã de Lázaro:
“Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, ainda que morra viverá; e todo aquele que vive e crê em
mim nunca morrerá” (Jo. 11:25). E depois demonstrou a Sua autoridade sobre a
morte dando vida a Lázaro. Nesse sentido, podemos considerar que a Vida de
Jesus dá sentido à morte. O apóstolo Paulo descobriu essa realidade ao afirmar:
“Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória? (I
Cor. 15: 55) e conclui “graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor
Jesus Cristo” (I Cor. 15: 57), pois como também podemos ler no livro dos Atos
dos Apóstolos (4:12), “abaixo
do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa
que sejamos salvos”.
Martin Luther King Jr. (1929-1968), que além de ter
sido um destacado ativista pelos direitos dos negros nos EUA era também pastor
baptista, escreveu pouco tempo antes do seu assassinato no Tennessee: “Foi
através de Cristo que Deus nos libertou do aguilhão da morte. A nossa vida
terrestre é o prelúdio de um novo despertar, e a morte é a porta que se abre
para a nossa entrada na vida eterna”. A mensagem central do Evangelho é
precisamente a destruição da morte e a esperança de vida eterna, através de Cristo. Se
acreditarmos em Jesus Cristo e nas Suas palavras podemos encarar a morte e o
futuro com confiança. Disse Jesus: “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se
não fosse assim eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E se eu for,
e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que,
onde eu estiver, estejais vós também” (Jo. 14: 2,3).
Termino
esta reflexão pessoal sobre a morte, contando a história apócrifa de um
missionário, no século passado, que regressou aos Estados Unidos, sua terra
natal, após muitos anos de dedicado serviço a Deus num país longínquo. Porém,
não estava ninguém no cais à sua espera para o acolher e lhe dar as
boas-vindas. No mesmo navio regressava o presidente dos EUA de uma curta
viagem, que teve à sua chegada toda a pompa e honras militares habituais nessas
circunstâncias. O missionário ficou triste e amargurado e disse a Deus:
“Senhor, servi-te fielmente ao longo de todos estes anos e não estava ninguém
para me receber e agradecer pelo meu trabalho quando cheguei a casa”. Deus
respondeu-lhe: “Meu Filho...tu ainda não chegaste a casa”.
Prof. Dr. Jorge
Cruz

