A INFLUÊNCIA DOS CRISTÃOS NA SAÚDE
Os médicos cristãos, motivados pelo ensino e exemplo de Jesus Cristo, têm
tido uma profunda influência na História da Medicina ao longo dos séculos. Têm
havido muitos nomes famosos, nomeadamente o cirurgião Ambroise Paré, Luis
Pasteur (pioneiro da assépsia), Joseph Lister (que aplicou as técnicas de
Pasteur à cirurgia), Edward Jenner (pioneiro da vacinação), James Simpson (que
introduziu o clorofórmio), Thomas Sydenham (o denominado “Hipócrates inglês”),
o clínico William Osler e o missionário David Livingstone. Mas há muitos outros
que deram contributos significativos, cujos nomes são apenas do conhecimento de
Deus e dos seus doentes reconhecidos.
Devemos regozijar-nos pelas realizações dos profissionais de saúde no
passado, mas esse passado só tem valor para nós se nos motivar a actos
semelhantes de serviço, nos nossos dias. As necessidades de saúde do presente
milénio são maiores do que em qualquer outra época da História. Como será que a
próxima geração nos vai classificar? Como irá a história julgar-nos?
Felizmente, o Cristianismo continua a influenciar os cuidados de saúde hoje,
através do trabalho pioneiro de cristãos nas áreas da Sida, pediatria, cuidados
paliativos, combate à pobreza e em especial no trabalho assistencial em países
em vias de desenvolvimento.
Tal como os primeiros discípulos, os profissionais de saúde de hoje são
chamados a levarem a sua cruz, seguindo as pegadas de Jesus Cristo. Para além
de considerarmos como prioridade a pregação do Evangelho a um mundo desesperado
e moribundo, na área da saúde isso significa duas coisas. Primeiro,
tornarmo-nos disponíveis para servirmos os doentes, onde quer que o Senhor nos
chamar. Segundo, estarmos prontos a defender os valores cristãos numa profissão
em que eles são cada vez mais desvalorizados, ignorados e rejeitados.
Os dois caminhos irão envolver dificuldades e sofrimentos, mas ambos irão
ser canais de grande benção para um mundo necessitado – desde que estejamos
dispostos a pagar o preço.
Num passado não muito distante, havia um consenso generalizado sobre os
princípios de Ética Médica, formulados em códigos éticos como o Juramento
Hipocrático e a Declaração de Genebra. Estes códigos são, em geral, condizentes
com o ensino bíblico, mas actualmente já não são considerados como absolutos.
Vivemos actualmente numa sociedade pós-cristã, onde a pluralidade de
tradições religiosas, antecedentes culturais, cosmovisões e ideologias, torna
impossível qualquer consenso real. Em resultado disto, tem assumido
preponderância uma nova ética secular, baseada numa visão ateísta do mundo.
O princípio cristão dos fortes darem a vida pelos fracos tem sido
substituído por uma ética evolucionista, em que os fracos são sacrificados a
favor dos mais fortes. Esta situação tem sido potenciada pelos avanços
tecnológicos e pelas limitações dos recursos económicos.
Esta mudança de direcção na ética é bem expressa no que respeita ao aborto:
esta prática era ilegal em todo o mundo até ao início do século XX, mas com a
“liberdade sexual” tornou-se comum, a ponto de as taxas de abortamento, a nível
mundial (50 milhões por ano) igualarem actualmente o conjunto das mortes devidas a todas as outras causas. A aceitação do aborto abriu caminho à
experimentação de embriões, manipulação genética e diagnóstico pré-natal, tendo
em vista a eliminação de fetos com malformações.
A preocupação dos governos perante o crescimento da população mundial levou
à instituição de políticas de limitação dos nascimentos (p.e. na China, apenas
é permitido um filho por casal), através de medidas de contracepção coerciva e
abortamento, sem procurarem resolver o verdadeiro problema do excesso de
consumo de recursos no Ocidente e a correcção dos desequilíbrios económicos,
que levam as pessoas dos países em vias de desenvolvimento a escolherem ter
famílias numerosas.
A pressão no sentido da aceitação da eutanásia tem vindo a aumentar, em todo
o mundo, após a sua legalização na Holanda. As restrições de recursos são cada
vez mais a principal justificação para o não tratamento dos doentes
considerados como tendo baixa qualidade de vida. É previsível que a
participação dos profissionais de saúde no aborto e eutanásia venha a ser
considerada “boa prática médica”. Numa altura em que o aborto e a contracepção
de emergência se tornaram parte dos “serviços” oferecidos pelos ginecologistas,
a eutanásia poderá também vir a fazer parte dos “serviços” oferecidos nas
especialidades de geriatria, psiquiatria, neurocirurgia ou cuidados intensivos.
Esta situação será potenciada pela crescente pressão de obtenção de órgãos de
doentes com baixa qualidade de vida, como os que se encontram em estado
vegetativo persistente, a não ser que a xenotransplantação se torne aceitável,
com os riscos que lhe estão associados.
Todas estas situações são impulsionadas por um sistema de saúde cada vez
mais baseado na relação custo-benefício, onde as prioridades são determinadas
pela agenda política e não por necessidades genuínas.
Esta tendência deve-se, em última análise, ao facto da sociedade ter
abandonado os valores cristãos. Se não houvesse imoralidade sexual,
provavelmente não haveria Sida nem
abortos. Se houvesse uma correcta distribuição de recursos, o débito dos países
em desenvolvimento e a pressão populacional não colocariam os problemas que
colocam. Se reconhecessemos a imagem de Deus em cada ser humano, não haveria
pressão para eliminar doentes com lesões cerebrais ou fetos com anomalias. Se
tal acontecesse, não hesitaríamos em colocar os mais fracos e vulneráveis em
primeiro lugar e em sacrificarmos o nosso tempo e dinheiro para promover o seu
bem-estar.
O serviço sacrificial e a defesa intransigente dos valores morais são dois
exemplos práticos do que significa seguir a Cristo na área da saúde, tanto no
presente século como no passado. Como profissionais de saúde cristãos, no
início de um novo milénio, precisamos de ter ideias claras acerca de todos
estes assuntos e termos a coragem moral para defendermos juntos aquilo em que
acreditamos, seja qual for o custo para a nossa reputação, carreira ou mesma
para a nossa vida.
A Bíblia declara que a altura da vinda de Cristo será de grande sofrimento.
Independentemente do fim do mundo estar iminente ou não (embora devamos estar
sempre prontos) e independentemente da nossa obediência a Jesus transformar
positivamente o curso da história, continuamos a ser chamados à fidelidade.
Podemos não ser capazes de corresponder às necessidades do mundo necessitado,
mas podemos ainda assim mostrar como essas necessidades poderão ser supridas.
Poderemos não ser capazes de travar a decadência moral da sociedade, mas
podemos ainda assim permanecer fiéis aos princípios morais. Acima de tudo,
precisamos, tal como os primeiros discípulos, de anunciar o Evangelho, porque o
julgamento de Deus virá e “o tempo é curto” (2Ped. 3:11, Col. 4:5). Se, com a
ajuda de Cristo, permanecermos firmes e unidos, a História testificará que
fomos fiéis em seguirmos o exemplo dos profissionais de saúde cristãos que nos
precederam.
Dr. Peter Saunders, secretário-geral da Christian Medical Fellowship do Reino Unido

