14/10/12

A INFLUÊNCIA DOS CRISTÃOS NA SAÚDE

Os médicos cristãos, motivados pelo ensino e exemplo de Jesus Cristo, têm tido uma profunda influência na História da Medicina ao longo dos séculos. Têm havido muitos nomes famosos, nomeadamente o cirurgião Ambroise Paré, Luis Pasteur (pioneiro da assépsia), Joseph Lister (que aplicou as técnicas de Pasteur à cirurgia), Edward Jenner (pioneiro da vacinação), James Simpson (que introduziu o clorofórmio), Thomas Sydenham (o denominado “Hipócrates inglês”), o clínico William Osler e o missionário David Livingstone. Mas há muitos outros que deram contributos significativos, cujos nomes são apenas do conhecimento de Deus e dos seus doentes reconhecidos.

Devemos regozijar-nos pelas realizações dos profissionais de saúde no passado, mas esse passado só tem valor para nós se nos motivar a actos semelhantes de serviço, nos nossos dias. As necessidades de saúde do presente milénio são maiores do que em qualquer outra época da História. Como será que a próxima geração nos vai classificar? Como irá a história julgar-nos?

Felizmente, o Cristianismo continua a influenciar os cuidados de saúde hoje, através do trabalho pioneiro de cristãos nas áreas da Sida, pediatria, cuidados paliativos, combate à pobreza e em especial no trabalho assistencial em países em vias de desenvolvimento.

Tal como os primeiros discípulos, os profissionais de saúde de hoje são chamados a levarem a sua cruz, seguindo as pegadas de Jesus Cristo. Para além de considerarmos como prioridade a pregação do Evangelho a um mundo desesperado e moribundo, na área da saúde isso significa duas coisas. Primeiro, tornarmo-nos disponíveis para servirmos os doentes, onde quer que o Senhor nos chamar. Segundo, estarmos prontos a defender os valores cristãos numa profissão em que eles são cada vez mais desvalorizados, ignorados e rejeitados.

Os dois caminhos irão envolver dificuldades e sofrimentos, mas ambos irão ser canais de grande benção para um mundo necessitado – desde que estejamos dispostos a pagar o preço.

Defendendo os Valores Cristãos

Num passado não muito distante, havia um consenso generalizado sobre os princípios de Ética Médica, formulados em códigos éticos como o Juramento Hipocrático e a Declaração de Genebra. Estes códigos são, em geral, condizentes com o ensino bíblico, mas actualmente já não são considerados como absolutos.

Vivemos actualmente numa sociedade pós-cristã, onde a pluralidade de tradições religiosas, antecedentes culturais, cosmovisões e ideologias, torna impossível qualquer consenso real. Em resultado disto, tem assumido preponderância uma nova ética secular, baseada numa visão ateísta do mundo.

O princípio cristão dos fortes darem a vida pelos fracos tem sido substituído por uma ética evolucionista, em que os fracos são sacrificados a favor dos mais fortes. Esta situação tem sido potenciada pelos avanços tecnológicos e pelas limitações dos recursos económicos.

Esta mudança de direcção na ética é bem expressa no que respeita ao aborto: esta prática era ilegal em todo o mundo até ao início do século XX, mas com a “liberdade sexual” tornou-se comum, a ponto de as taxas de abortamento, a nível mundial (50 milhões por ano) igualarem actualmente o conjunto das mortes devidas a todas as outras causas. A aceitação do aborto abriu caminho à experimentação de embriões, manipulação genética e diagnóstico pré-natal, tendo em vista a eliminação de fetos com malformações.

A preocupação dos governos perante o crescimento da população mundial levou à instituição de políticas de limitação dos nascimentos (p.e. na China, apenas é permitido um filho por casal), através de medidas de contracepção coerciva e abortamento, sem procurarem resolver o verdadeiro problema do excesso de consumo de recursos no Ocidente e a correcção dos desequilíbrios económicos, que levam as pessoas dos países em vias de desenvolvimento a escolherem ter famílias numerosas.

A pressão no sentido da aceitação da eutanásia tem vindo a aumentar, em todo o mundo, após a sua legalização na Holanda. As restrições de recursos são cada vez mais a principal justificação para o não tratamento dos doentes considerados como tendo baixa qualidade de vida. É previsível que a participação dos profissionais de saúde no aborto e eutanásia venha a ser considerada “boa prática médica”. Numa altura em que o aborto e a contracepção de emergência se tornaram parte dos “serviços” oferecidos pelos ginecologistas, a eutanásia poderá também vir a fazer parte dos “serviços” oferecidos nas especialidades de geriatria, psiquiatria, neurocirurgia ou cuidados intensivos. Esta situação será potenciada pela crescente pressão de obtenção de órgãos de doentes com baixa qualidade de vida, como os que se encontram em estado vegetativo persistente, a não ser que a xenotransplantação se torne aceitável, com os riscos que lhe estão associados.

Todas estas situações são impulsionadas por um sistema de saúde cada vez mais baseado na relação custo-benefício, onde as prioridades são determinadas pela agenda política e não por necessidades genuínas.

Esta tendência deve-se, em última análise, ao facto da sociedade ter abandonado os valores cristãos. Se não houvesse imoralidade sexual, provavelmente não haveria Sida  nem abortos. Se houvesse uma correcta distribuição de recursos, o débito dos países em desenvolvimento e a pressão populacional não colocariam os problemas que colocam. Se reconhecessemos a imagem de Deus em cada ser humano, não haveria pressão para eliminar doentes com lesões cerebrais ou fetos com anomalias. Se tal acontecesse, não hesitaríamos em colocar os mais fracos e vulneráveis em primeiro lugar e em sacrificarmos o nosso tempo e dinheiro para promover o seu bem-estar.

O serviço sacrificial e a defesa intransigente dos valores morais são dois exemplos práticos do que significa seguir a Cristo na área da saúde, tanto no presente século como no passado. Como profissionais de saúde cristãos, no início de um novo milénio, precisamos de ter ideias claras acerca de todos estes assuntos e termos a coragem moral para defendermos juntos aquilo em que acreditamos, seja qual for o custo para a nossa reputação, carreira ou mesma para a nossa vida.

A Bíblia declara que a altura da vinda de Cristo será de grande sofrimento. Independentemente do fim do mundo estar iminente ou não (embora devamos estar sempre prontos) e independentemente da nossa obediência a Jesus transformar positivamente o curso da história, continuamos a ser chamados à fidelidade. Podemos não ser capazes de corresponder às necessidades do mundo necessitado, mas podemos ainda assim mostrar como essas necessidades poderão ser supridas. Poderemos não ser capazes de travar a decadência moral da sociedade, mas podemos ainda assim permanecer fiéis aos princípios morais. Acima de tudo, precisamos, tal como os primeiros discípulos, de anunciar o Evangelho, porque o julgamento de Deus virá e “o tempo é curto” (2Ped. 3:11, Col. 4:5). Se, com a ajuda de Cristo, permanecermos firmes e unidos, a História testificará que fomos fiéis em seguirmos o exemplo dos profissionais de saúde cristãos que nos precederam.
 
Dr. Peter Saunders, secretário-geral da Christian Medical Fellowship do Reino Unido